Em 2025 e no início de 2026, os principais indicadores da hotelaria brasileira seguiram uma trajetória positiva.
Segundo o FOHB, a diária média e o RevPAR continuaram crescendo em boa parte dos mercados monitorados, refletindo uma recuperação consistente da demanda e maior capacidade de precificação.
À primeira vista, esse cenário parece bastante favorável.
Mas existe uma pergunta importante:
Se as receitas continuam crescendo, por que tantos gestores ainda relatam dificuldade para preservar as margens?
A resposta está menos na receita e mais na estrutura de custos.
A própria ABIH-SP destaca que o setor inicia 2026 convivendo com custos elevados, crédito mais caro, aumento das despesas operacionais e pressão sobre o caixa. Segundo a entidade, comissões, impostos e custos financeiros podem consumir parcela significativa da receita de hospedagem, reduzindo a capacidade de investimento mesmo em um ambiente de crescimento da diária média.
Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil.
O relatório State of the Industry 2026, da American Hotel & Lodging Association (AHLA), mostra que hotéis norte-americanos também enfrentam um ambiente de inflação persistente de custos, escassez de mão de obra e necessidade crescente de ganhos de eficiência operacional. O relatório chama atenção para um ponto importante: demanda estável não significa, necessariamente, rentabilidade crescente.
Isso muda a forma como avaliamos desempenho.
Durante muitos anos, aumentar a diária foi o principal mecanismo para compensar o aumento dos custos. Hoje essa estratégia encontra limites. Mercados mais competitivos possuem elasticidade de preço. Em determinado momento, novos reajustes podem reduzir conversão, deslocar demanda para concorrentes ou simplesmente limitar o crescimento da ocupação.
Isso não significa que elevar tarifas esteja errado.
Significa apenas que a gestão financeira da hotelaria deixou de depender exclusivamente da tarifa.
Cada vez mais, gestores precisam olhar para duas perguntas diferentes:
- Como proteger margem?
- Como aumentar receita sem depender apenas do preço do quarto?
É nesse contexto que indicadores como RevPAR passam a ser importantes, mas deixam de contar toda a história.
O próprio mercado vem ampliando a atenção para métricas que consideram a capacidade de monetizar toda a operação, e não apenas a hospedagem. Restaurantes, eventos, alimentos e bebidas, experiências e outros serviços tornam-se parte cada vez mais relevante da análise de desempenho.
Talvez essa seja a principal mudança estratégica da hotelaria nesta década.
A discussão deixou de ser apenas "como vender mais apartamentos". Passou a ser "como aumentar o resultado financeiro utilizando melhor toda a estrutura existente".
Essa mudança exige menos decisões baseadas em intuição e mais decisões apoiadas por dados operacionais e financeiros. Porque, no cenário atual, crescimento de receita e crescimento de lucro já não caminham, necessariamente, na mesma velocidade.